Avançar para o conteúdo principal

A grande paz

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor, os rios , a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Invisível

Amor. O amor é o invisível no habitual. AGVSTINA BESSA-LUÍS [na primeira pessoa] Dicionário Imperfeito Guimarães Editores ( imagem Maria João Alves)

Vida

"Não há nada mais gratificante do que o afeto, nada mais perfeito do que a reciprocidade de gostos e a troca de atenções" Marcus Cícero Gosto  de quem ama mesmo. Por que quem ama é autêntico e sabe rir, é atencioso, sabe dar carinho. Quem ama presta atenção aos outros.  Admiro o sentimento de reciprocidade, e as pessoas que beijam e abraçam com total entrega. Há pessoas com a capacidade de partir o mundo dos outros. Reduzi-lo a escombros.Desenganem-se os crédulos, não é possível pegar nos cacos e refazer algo sem sangrar. Esvaímo- nos do que fomos. Não há como voltar a colar a vida . Valha-nos saber tratar de cada coisa depois de partida,  valha-nos saber o lugar de cada uma, - o nosso lugar e o das coisas que não nos cabem mais. " os afetos podem às vezes, somar- se. Subtrair-se nunca"... alguém disse.